As travessas mantiveram-se ocultas tempo atrás de tempo no fundo falso do móvel do corredor. Ninguém deu por elas quando lá foi colocado e, como acontece com tudo o que tem o seu tempo, agora, com o tampo já riscado, o corpo longe de novo, embora as coisas antigas lhe sejam caras, evocação de memórias e vozes passadas, pudesse ficar ali mais uns anos, decidiu desmanchá-lo e encaminhá-lo para que possa ser dada paz à sua alma de móvel que cumpriu inteiramente a sua função e poderá, quem sabe, voltar a renascer noutro corpo. Qual gente!
Três era o total de travessas, antigas, lindíssimas, apesar de uma, a mais pequena, já rachada, ter sido colada, porventura há muitos anos, o que não fez qualquer diferença nem lhe diminuiu o valor afectivo, como o sentimento despoletado ao vê-las.
Há alma nas coisas que não falam nem se mexem como em nós, acredito! Encontrando a forma de se manifestarem no tempo certo, como alguém não visto há muito tempo, que aparece de repente.
Ou a alma daqueles a quem pertenceram arranja forma de chegar até nós através delas, pelo toque, em tempos nelas deixado; a serventia que tão bem desempenharam parece, ao surgirem assim, desejarem voltar a ter.
Mantidas ocultas timidamente presenciando momentos, entendendo conversas, pesando atitudes, de certo modo presentes nessa sua ausência ignorada, lembram-me a timidez humana dos que presentes ninguém vê, ouve, nem procura, mas existem.