Momentos na pressa dos dias

Canoa

Fotografia minha

Vejo-a agora ancorada
a cordalha a ondular,
num rio a que chamam mar,
pouso de uma gaivota a piar
enquanto mergulham uma e outra,
na corrente inexistente
sem nos bicos algo levar.


Parece que desistiu, após no rio da vida subir e descer sem parar.
Com o vento de feição, num momento de improviso,
o vasto oceano beijar.
Mas longe está a canoa de na vida estar à toa,
ou com o calado rasgado,
impedida de vogar.
Nem a gaivota se lhe juntou neste seu resignar.

 

Vendo-as na margem paradas,
julgam-nas velhas, derrotadas,
os que de longe observam,
gaivota e canoa num vínculo
que já não inclui o mar.
Enquanto as outras mergulham,
há canoas a pescar.

 

Distinguem-se canoa e gaivota pelos corpos assim ligados,
não pelos nomes que lhes foram dados,
como se um barco fosse ave,
Apesar do seu flanar.
Uma ave seja barco, nas águas, ao flutuar.
Mas quem as vê assim na margem...
Não pensa sequer que a uma e outra o mesmo pode chamar.

 

Parece a gaivota o Outono, empoleirada a estibordo,
ao longe querer avistar
como a canoa o aguarda para se fazer ao mar.
Tal qual a alma de ambas nunca a pudessem dividir.
E o nome por si partilhado
una os volteios da vida,
quando um dia terminar.

 

 

 

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