Momentos na pressa dos dias

Refúgio

Fotografia minha

Quando escrevo ali, naquele despercebido nicho que ninguém percebe existir, dá conta dele quando passa, incrustado também apenas na minha alma sedenta de fazer-se ouvir, mas, como às demais, a quem foram interditas as palavras em voz audível, é como se na minha frente se personificassem outras, as tantas de mim, perfiladas em fila para, a seu tempo, expressarem o que a própria alma clama no silêncio que lhe foi imposto. 
Felizmente, a nenhuma alma foi dada a voz que a boca exclama sem rodeios, tantas vezes irrazoável e rude. 
Ficou-lhes reservado o ponderado e precioso silêncio de quem tudo sente e, quando sentido, porque o mundo é o mundo, pronuncia-se discretamente naquele murmúrio inaudível que tudo diz, sem letras nem pontuação, e ainda assim nas mais valiosas, acertadas e incontestáveis palavras.
Quando eu e eu apenas presentes, deixo a minha alma expressar-se na solidão desse recanto ermo onde, na única réstia de luz, o pó dança ao som do não ouvido, porém perfeitamente percepcionado, como o mais refinado dos sentimentos, ideia proveitosa, segredo nunca expresso, sinto-me cheia. Capaz!
Como jamais consegui ou conseguirei perante uma "plateia".
Quando escrevo ali... completamente esquecida por tudo e todos, posso abandonar-me por completo também e cumprir na essência esta alma tagarela que, ininterruptamente, ouve, sabe e responde sem falha a tudo o que retenho dentro e só muito poucos conseguem, quiçá, por similaridade, entender. 

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