Fotografia minha
A vida das pessoas não é um sonho, por mais que o desejem. De o afiançarem muitas vezes a pés juntos. A vida das pessoas não é romântica, além da vontade que fosse, a aparência não o desmente.
A vida das pessoas é o que é. Um tempo determinado gerido melhor ou pior durante as várias fases da existência do ser humano. Um molho de situações equívocas, com outras demais claras e simples, eivada de alguns expoentes de prazer e de realização, vividos num ápice, ou intuídos no engano do próprio, convencido de que o que não quer ver, ou renega, foge à vista dos restantes que, cobarde ou misericordiosamente, não o acordam para a realidade.
O que seria, por vezes, o melhor a fazer, mas jamais entendido ou aceite como um gesto de amizade, um acto de apreço, ou mesmo a tal misericórdia que livra do ridículo o convicto de equilíbrio.
A vida das pessoas é amável para com elas durante os primeiros anos, não obstante, sob a pena de não se recordarem na íntegra depois.
A vida das pessoas é intensa durante o período seguinte, mas o peso da responsabilidade cobra-lhes ao segundo cada um dos seus actos, dissecando-os e catalogando-os um após outro.
A vida das pessoas torna-se uma repetição e reposição de "takes", quotidianamente geridas por mostradores e ecrãs; a quebra sucede, a espaços, como numa transmissão interrompida na tela que antes a exibia sem intromissões.
A vida das pessoas gasta-se. Esgota-se aos poucochinhos, como lhes foge o brilho mágico do olhar, o rubor sedutor das faces, dando lugar ao emaciado dos muitos entardeceres e madrugadas vividos melhor ou pior por quem a aproveita ou simplesmente a deixa passar.
A vida das pessoas é o tempo concedido a cada um, em que outros entram, ou não, como no elenco de um filme.
A vida das pessoas é mais despedidas que chegadas. Muito dela é afastamento, ainda que se pretenda ou faça tudo pela proximidade.