Fotografia minha
Rasgam-se papéis ali próximo. Sente o cheiro das folhas velhas, o sistemático despedaçar sem ver-lhe préstimo, mas não o grito terrível que emitirão ao se espalharem pelo chão desmembradas.
Na janela olha fixamente para outras folhas, igualmente secas, caídas, cujo cheiro à estação vigente o tempo quente teima em abafar e, curiosamente, não as vê rodopiar pelo chão como de costume. A bem dizer também não há brisa que o justifique, mas para si, mesmo que houvesse...
Para si, chorarão quem sabe o destino das que no interior, sem lhes verem utilidade, agridem a punho; desintegrando a sua essência, ainda que os pedaços maiores ou ínfimos as caracterizem como folhas. Oriundas igualmente de uma correnteza de árvores a que arrancaram raízes, caules, indiferentes às folhas e aos frutos que poderiam dar.
Rasgam-se papéis ali próximo. Rasgar-se-ão além daqui folhas, aniquilando livros, ignorando o sangue dos espinhos cravados na carne de quem colhe o algodão, a aspereza do cânhamo.
E uma lágrima também silenciosa escorre-lhe rosto abaixo, sem, contudo, atenuar o nó que sente na garganta.