Momentos na pressa dos dias

Tanto, de tal forma...

Fotografia minha

Gosto de dias sombrios. Ruas desertas. Praias sozinhas. Igrejas sem vivalma. Pedras seculares cujos segredos me intrigam. Palácios, castelos, conventos, casas senhoriais, casas simples, casebres, onde o tecto ruiu mas as paredes, ou parte delas, se mantêm orgulhosamente de pé.
Gosto de bruma densa, da vegetação húmida que atapeta o chão e vergasta ou beija, às vezes, a minha pele ao passar.
Gosto da aproximação da água que pressinto no ar ou, próxima, sem me abrigar quando uma cai sem aviso, a outra flui calma no leito ou selvagem trota encosta abaixo. Gosto de, com a mão em concha, bebê-la gelada entre as frestas da serra, não encanada e livre. Sorvê-la com a língua da pele.
Maravilhar-me com ela, ondulante sobre as folhas de milho, ao tombar-me nos pés. De cheirá-la no ar quando as medas encharcadas, mesmo de oleado semitapadas, a deixam sentir. Daquele tilintar nas videiras e, deslizando das parras, aterrarem nas poças.
Gosto deste sortilégio, do simples imaginar tudo o que me transcende sabendo que há outros assim... 
Gosto imenso disto e de tanto, de tal forma que não consigo transpor para o papel, mas faz-me vibrar por dentro e por fora!
E, ainda que a olho nu pareça tranquila e distante, na verdade, escorre-me lava nas veias.

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